
Uma pesquisa do Sebrae revela que 61% dos empreendedores brasileiros ainda misturam suas finanças pessoais e empresariais, prática que compromete a saúde e o crescimento dos negócios. Essa informalidade exige urgentemente a profissionalização da gestão financeira, com o apoio de contadores, para garantir decisões mais assertivas e a sustentabilidade das empresas.
A Perigosa Mistura: Por Que 61% dos Empreendedores Brasileiros Ainda Pagam Contas da Empresa com Dinheiro Pessoal?
A gestão financeira é o alicerce de qualquer negócio bem-sucedido. Contudo, no cenário empreendedor brasileiro, uma prática comum e arriscada persiste: a confusão entre finanças pessoais e empresariais. Dados recentes revelam que mais de seis em cada dez empreendedores no Brasil ainda utilizam suas contas pessoais para quitar despesas de suas empresas, um indicativo alarmante de informalidade e de um controle financeiro precário que pode comprometer a sustentabilidade e o crescimento dos pequenos negócios. Essa realidade, que se mantém praticamente inalterada nos últimos anos, aponta para a necessidade urgente de uma conscientização e de estratégias eficazes para profissionalizar a administração financeira dos empreendimentos. Entender as causas e as consequências dessa mistura é o primeiro passo para traçar um caminho rumo a uma gestão mais robusta e transparente.
A Confusão de Finanças Pessoais e Empresariais: Um Retrato Nacional
A pesquisa “Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios”, conduzida pelo Sebrae, trouxe à tona um dado que, embora não seja novidade, merece atenção redobrada: 61% dos empreendedores brasileiros não distinguem claramente suas finanças pessoais das empresariais. Esse percentual, que era de 60% em 2023 e permaneceu quase idêntico em 2025, demonstra uma resistência a uma prática fundamental para a saúde de qualquer empresa. Para muitos, essa mistura pode parecer uma simplificação no dia a dia, especialmente para quem está começando ou tem um negócio de menor porte. No entanto, ela esconde armadilhas significativas que podem inviabilizar o crescimento, dificultar a análise de desempenho e até mesmo gerar problemas fiscais e legais. A ausência de uma fronteira clara entre os recursos do indivíduo e os da pessoa jurídica é um sintoma de uma informalidade gerencial que precisa ser superada para que os negócios alcancem um novo patamar de profissionalismo e resiliência.
O Perigo Invisível da Falta de Separação Financeira
As consequências de misturar as finanças vão muito além de uma simples inconveniência. Essa prática impede uma visão clara da real rentabilidade do negócio. Se o empreendedor paga contas pessoais com o caixa da empresa, ele superestima a disponibilidade de recursos e subestima os custos operacionais, o que distorce completamente a percepção do lucro. Da mesma forma, ao cobrir despesas da empresa com a conta pessoal, o empresário perde a oportunidade de registrar esses gastos devidamente, não apenas para fins contábeis e fiscais, mas também para uma análise precisa de custos. Décio Lima, presidente do Sebrae Nacional, enfatiza que essa mistura “contamina” os movimentos financeiros da empresa, tornando impossível uma avaliação precisa de sua saúde. Sem dados fidedignos, a tomada de decisão se baseia em suposições, não em fatos, aumentando drasticamente o risco de falhas no planejamento, na precificação e na gestão de fluxo de caixa.
Os Números Revelam: Uma Análise da Pesquisa Sebrae
A pesquisa do Sebrae não apenas quantifica o problema, mas também oferece um panorama detalhado dos hábitos financeiros dos pequenos negócios. O fato de 61% dos empreendedores reportarem essa prática indica que, apesar da evolução das ferramentas financeiras e da crescente digitalização, muitos ainda não incorporaram a separação de contas como um princípio básico. Essa persistência no hábito reflete uma lacuna na educação financeira e empresarial que precisa ser endereçada. Os dados mostram que a maturidade na gestão financeira tende a acompanhar o porte do negócio, ou seja, quanto maior e mais estruturada a empresa, menor a propensão a misturar as finanças. Essa correlação é um lembrete de que a profissionalização financeira é um caminho, e que o início dessa jornada é crucial para o amadurecimento do empreendimento.
Variações por Porte e Setor: Onde o Hábito é Mais Forte
A análise da pesquisa revela que o porte da empresa e o setor de atuação são fatores influentes na prevalência dessa mistura de finanças. Empreendimentos de menor porte, como microempresas e MEIs (Microempreendedores Individuais), tendem a ser mais suscetíveis à informalidade na gestão. À medida que o negócio cresce e se formaliza, a necessidade de uma contabilidade clara se torna evidente, levando a uma maior separação.
Quando olhamos para os setores, a pesquisa destaca que a Construção Civil/Indústria é o segmento mais propenso a misturar finanças pessoais e empresariais, com 64% dos empreendedores adotando essa prática. Em seguida vêm os Serviços (62%) e o Comércio (57%). Essa variação pode estar ligada às características operacionais de cada setor, à forma como as transações são realizadas e, talvez, à percepção do próprio empreendedor sobre a complexidade de sua gestão. Setores com operações mais fragmentadas ou com maior dependência de pagamentos avulsos podem encontrar mais desafios na implementação de uma separação rígida.
O Mosaico Regional da Gestão Financeira no Brasil
A pesquisa Sebrae também pinta um mapa interessante das práticas financeiras pelo país. As regiões Nordeste (67%) e Norte (64%) apresentam os maiores índices de uso da conta pessoal para despesas da empresa, o que pode refletir particularidades culturais, socioeconômicas e de acesso a informações e ferramentas financeiras nesses locais. Em contraste, a Região Sul (56%) e estados como Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná demonstram maior resistência a esse comportamento, indicando uma possível maior aderência a práticas de gestão mais formalizadas. Essas diferenças regionais sugerem que as estratégias de educação e apoio ao empreendedorismo devem ser adaptadas às realidades e necessidades específicas de cada localidade, levando em conta os desafios e oportunidades inerentes.
Métodos de Controle: Do Caderno ao Aplicativo
A forma como os empreendedores controlam suas finanças também foi um ponto chave da pesquisa. Apenas 30% dos pequenos negócios utilizam planilhas no computador, uma ferramenta básica, mas eficaz, para organização. Preocupantemente, 25% ainda recorrem a anotações em cadernos, e 10% confessam não ter qualquer forma de gestão financeira. O uso de aplicativos ou sistemas digitais, embora em crescimento, ainda atinge apenas 20% dos empreendedores. Há ainda uma parcela de 13% que delega o controle inteiramente ao contador, o que é uma boa prática, desde que haja comunicação e entendimento mútuo das finanças.
As diferenças regionais persistem também aqui: enquanto Sudeste e Sul lideram no uso de planilhas (33%), com destaque para São Paulo (39%) e Santa Catarina (35%), as regiões Norte e Nordeste registram maior uso de cadernos (Piauí com 43%, Pará com 40%). A ausência de controle é mais acentuada no Mato Grosso (18%), sublinhando a urgência de programas de capacitação e ferramentas acessíveis em todas as regiões do país.
A Chave para a Virada: Educação e Apoio Empreendedor
Diante desse cenário, a educação empreendedora emerge como a principal ferramenta para reverter o quadro. Décio Lima reitera que essa é uma questão de cultura que exige tempo e aprendizado. Instituições como o Sebrae desempenham um papel vital ao disponibilizar capacitações e cursos gratuitos focados em gestão financeira. Esses recursos são projetados para serem rápidos e práticos, oferecendo aos empreendedores o conhecimento necessário para implementar as melhores práticas, como a separação de contas, o controle de fluxo de caixa e a análise de indicadores. O acesso a essas ferramentas de aprendizado é fundamental para que o empresário possa transitar de uma gestão intuitiva para uma gestão estratégica e informada.
Rumo à Maturidade Financeira: Próximos Passos para o Empreendedor
Profissionalizar a gestão financeira não é apenas uma questão de conformidade, mas de estratégia para o crescimento e a longevidade do negócio. Separar as contas, registrar todas as transações, analisar o fluxo de caixa e compreender os custos e receitas são práticas que fornecem dados concretos para decisões mais acertadas. Além disso, uma gestão financeira organizada facilita o acesso a crédito, melhora o relacionamento com fornecedores e clientes, e prepara a empresa para expansão. É um investimento no futuro que se traduz em maior segurança, menor risco e mais oportunidades. O empreendedor que adota essa disciplina não apenas protege seu patrimônio pessoal, mas também impulsiona o potencial de seu negócio no mercado.
Para garantir a saúde e o crescimento sustentável do seu negócio, é essencial adotar uma gestão financeira profissional e transparente. Comece hoje a revisar suas práticas e explore as oportunidades de aprimoramento. Converse com seu contador sobre essa oportunidade.
Referência Bibliográfica:
Agência Sebrae de Notícias. (2026, 7 de janeiro). 61% dos empreendedores brasileiros fazem pagamentos da empresa com a conta pessoal. Disponível em: https://agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/61-dos-empreendedores-brasileiros-fazem-pagamentos-da-empresa-com-a-conta-pessoal/. Acesso em 14 de janeiro de 2026.