
A dinâmica geopolítica global está redefinindo o ESG, tornando a integração de critérios ambientais, sociais e de governança fundamental para o setor de segurança, antes excluído. Essa mudança visa promover transparência, responsabilidade e acesso a investimentos, exigindo que empresas e contadores adaptem suas estratégias de conformidade e gestão.
Desvendando o Papel do ESG no Setor de Segurança em um Mundo em Transformação
Historicamente, o mundo financeiro e corporativo tendia a categorizar certas indústrias, conhecidas como “indústrias do pecado”, como incompatíveis com os princípios de Investimento Socialmente Responsável. Setores como tabaco, álcool, jogos de azar e, notavelmente, armamentos, eram frequentemente excluídos de portfólios focados em boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Contudo, a dinâmica geopolítica global recente tem provocado uma reavaliação profunda dessa perspectiva, especialmente no que tange ao setor de segurança. À medida que conflitos globais se intensificam e a segurança nacional ascende na agenda de prioridades de inúmeros países, surge um debate inadiável sobre a integração e o papel transformador do ESG nessas indústrias.
A Redefinição do ESG em um Cenário Global Volátil
A concepção tradicional de ESG, que frequentemente via o setor de defesa como um pária, está sendo urgentemente reexaminada. A escalada de tensões e conflitos internacionais, como a invasão da Ucrânia, colocou a segurança e a defesa no centro das discussões estratégicas e de investimento. Essa realidade obrigou a uma profunda reflexão: é possível e desejável que empresas que atuam em áreas tão críticas, e com impacto tão significativo, operem sem a devida consideração aos pilares ambiental, social e de governança? A resposta emergente é que não apenas é possível, mas é fundamental. A estabilidade global e a proteção de valores democráticos, ironicamente, dependem de um setor de defesa robusto e, idealmente, responsável, empurrando os limites do que significa ser “sustentável” em um mundo complexo e interconectado.
Segurança Nacional: Uma Prioridade Econômica Crescente
Os números que circundam o setor de segurança são eloquentes e demonstram sua escala monumental. Os Estados Unidos, por exemplo, detêm uma parcela significativa do orçamento militar global, com propostas que já atingem a marca de trilhões de dólares anualmente. No continente europeu, a Agência Europeia de Defesa reportou um aumento de 98% nos gastos da União Europeia em defesa desde 2020, superando € 392 bilhões. Esse crescimento, liderado por nações como Alemanha e França, não é meramente uma resposta a ameaças iminentes, mas reflete uma profunda reavaliação da autonomia estratégica e da capacidade de autodefesa da região. Tais investimentos bilionários reforçam que a segurança nacional transcendeu o conceito de um mero gasto governamental, tornando-se um investimento crítico na preservação da ordem e na proteção dos interesses fundamentais de estados e cidadãos.
Quebrando Paradigmas: A Inclusão do Setor de Defesa no ESG
A persistência em tratar indústrias como a de defesa (e até mesmo a de mineração) como intrinsecamente incompatíveis com o ESG ignora a oportunidade de promover transformações positivas. Afinal, qualquer empresa, independentemente de seu setor, possui impactos ambientais, relações sociais e estruturas de governança que podem ser aprimoradas. A exclusão de um setor tão vital da estrutura ESG não o torna “mais limpo” ou “mais ético”; pelo contrário, priva-o de um poderoso mecanismo de conformidade e aprimoramento. A integração do setor de segurança ao arcabouço ESG significa sujeitá-lo aos mesmos padrões de transparência, responsabilidade e ética que se exigem de outras indústrias, impulsionando a gestão de riscos, a proteção da reputação e a construção de confiabilidade junto aos stakeholders.
O Compromisso do Reino Unido: A Carta ESG da Defesa
Um exemplo prático e inspirador dessa mudança de paradigma vem do Reino Unido, onde a indústria de defesa lançou a “Carta ESG da Defesa”. Este documento representa um marco significativo, pois os signatários se comprometem publicamente a “impulsionar a ambição e a ação em prol da sustentabilidade”. Ao promover maior transparência e colaboração, a Carta estabelece um framework para que as empresas de defesa trabalhem em conjunto na consecução de metas ambiciosas. Ela busca alinhar as operações de defesa com os objetivos de sustentabilidade globais, demonstrando que é possível, mesmo em um setor tão complexo, incorporar uma mentalidade de responsabilidade e melhoria contínua.
Pilares da Sustentabilidade na Indústria de Defesa
A Carta ESG da Defesa britânica detalha compromissos específicos que se ramificam pelos três pilares do ESG:
- Ambiental: As empresas visam descarbonizar suas operações, contribuir com o desenvolvimento e a implementação de tecnologias limpas e aumentar a resiliência de suas cadeias de suprimentos, especialmente em relação a minerais críticos. Isso abrange desde a eficiência energética em suas instalações até a pesquisa de materiais e processos menos impactantes.
- Social: O foco está em promover a diversidade, equidade e inclusão em suas equipes, reconhecendo que uma força de trabalho representativa e engajada é essencial para a inovação e a eficácia. Além disso, busca-se um impacto social positivo nas comunidades onde operam.
- Governança: Aprimorar a resiliência cibernética e implementar sistemas sustentáveis de controle de exportações são aspectos cruciais. Uma governança robusta é vital para garantir a ética nas operações, a conformidade regulatória e a gestão eficaz de riscos em um ambiente de alta complexidade.
Esses compromissos demonstram uma compreensão crescente de que a “sustentabilidade” não se limita a questões ecológicas, mas engloba uma gestão holística e responsável em todas as dimensões corporativas.
A Mudança na Lente dos Investidores
A percepção dos investidores em relação ao setor de defesa passou por uma reviravolta notável, impulsionada por eventos globais. A invasão da Ucrânia, em particular, catalisou uma reavaliação do papel das indústrias de defesa. O que antes era visto primariamente como um “gasto militar” agora é percebido como um “ativo público essencial” para a proteção da estabilidade geopolítica e dos valores democráticos. Essa mudança se reflete em dados, como o aumento de 6% no número de investidores institucionais nas 16 maiores empresas de defesa em 2022, segundo um relatório da PwC. Isso indica que, para muitos, investir em defesa tornou-se uma forma de apoiar a segurança e a resiliência de nações democráticas, e não mais apenas uma aposta em conflitos.
Desafios e Oportunidades: Evitando o “Greenwashing”
Apesar do entusiasmo com a inclusão do setor de segurança no ESG, a preocupação com o “greenwashing” é legítima. É fácil para as empresas reportarem iniciativas de sustentabilidade que se concentram em aspectos periféricos de suas operações, como o uso de energia renovável em escritórios administrativos ou a redução de plástico em embalagens internas. No entanto, o verdadeiro desafio reside em estender as práticas ESG aos elementos centrais e mais impactantes das atividades militares, como testes de armamentos, logística de guerra e as consequências ambientais de zonas de conflito. Para que a integração do ESG seja significativa, ela deve ir além do superficial, incidindo sobre as emissões de gases de efeito estufa inerentes às operações militares e o impacto ambiental direto da produção e uso de equipamentos de defesa.
Harmonizando com Agendas Globais: ODS e a Indústria de Segurança
O setor de segurança também demonstra aspirações em se alinhar às grandes agendas globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Embora essa seja uma meta louvável, existem barreiras substanciais a serem superadas. Conflitos armados, por sua natureza, geram degradação ambiental severa, desde a contaminação do solo e da água até a emissão massiva de gases de efeito estufa. O desafio é conciliar a missão primordial de segurança com a necessidade de mitigar esses impactos. A busca por tecnologias de defesa mais “limpas”, o desenvolvimento de estratégias para a recuperação ambiental pós-conflito e a implementação de controles mais rigorosos sobre resíduos perigosos são passos essenciais. A adesão ao ESG e aos ODS exige uma reengenharia de processos e uma inovação que transcendam o marketing, buscando um impacto real e mensurável.
O Futuro da Conformidade ESG para a Segurança
A jornada do setor de segurança rumo à conformidade ESG é complexa, mas inegavelmente necessária. Não se trata apenas de uma questão de imagem corporativa ou de acesso a capital, mas de uma responsabilidade inerente à sua função estratégica no mundo. A construção de uma “trilha de transição” para a conformidade ambiental, social e de governança deve ser robusta, baseada em evidências sólidas e capaz de resistir ao escrutínio legal e regulatório. Ao invés de uma mera lista de verificações, o ESG deve ser um catalisador para a inovação e a redefinição de práticas, permitindo que o setor não só se posicione favoravelmente nos futuros mercados de capitais, mas também cumpra seu papel ampliado na promoção do progresso sustentável e na defesa de regimes democráticos em um cenário global instável.
Diante desse cenário em constante evolução, é fundamental que empresas e profissionais avaliem proativamente o impacto e as oportunidades das práticas ESG, mesmo em setores desafiadores como o da segurança. Converse com seu contador sobre como integrar essas estratégias e garantir a sustentabilidade e a conformidade do seu negócio.
Converse com seu contador sobre essa oportunidade.
Referência Bibliográfica:
LEE, Yun Ki; SILVEIRA, Ricardo Freitas. Papel do ESG no setor de segurança. JOTA, 16 fev. 2026. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/praticas-esg/papel-do-esg-no-setor-de-seguranca. Acesso em: 25 de fevereiro de 2026.