
A libertação de Auschwitz serve como um alerta crucial para combater o crescente antissemitismo e a ignorância histórica, protegendo os alicerces da democracia. Manter viva a memória do Holocausto é essencial para enfrentar a intolerância e a disseminação de ódio na era digital, preservando a dignidade humana.
Auschwitz: A Memória Vívida e o Alerta Constante Contra o Ódio
Em 27 de janeiro, o mundo marca mais um aniversário da libertação do maior e mais sombrio campo de extermínio da história, Auschwitz-Birkenau. Localizado na cidade polonesa de Oswiecim, este dia não é apenas uma data no calendário, mas um lembrete pungente do abismo de desumanidade que a humanidade é capaz de alcançar e, mais importante, da imperativa necessidade de combater o esquecimento e as novas manifestações de intolerância.
A Fragilidade da Memória e a Ignorância Histórica
Embora o termo “Holocausto” (ou “Shoah”, que significa catástrofe ou aniquilação) seja frequentemente evocado para descrever tragédias e guerras contemporâneas, há uma preocupante e crescente falta de compreensão sobre a profundidade e a sistemática natureza do extermínio de dois terços dos judeus europeus, incluindo os do norte da África. Pesquisas recentes revelam uma lacuna alarmante na memória histórica, especialmente entre as gerações mais jovens e segmentos da população com menor acesso à educação. No Brasil, por exemplo, a capacidade de definir corretamente o Holocausto varia drasticamente com o nível educacional e a renda, indicando uma falha grave na transmissão desse conhecimento vital. Apenas uma fração da população consegue identificar Auschwitz-Birkenau como um campo de extermínio.
O Perigo da Era Digital na Disseminação do Ódio
A ignorância sobre eventos tão cruciais como o Holocausto não é apenas uma deficiência educacional; ela representa um risco real para os alicerces da democracia. Na era digital, as mensagens de ódio, racismo, antissemitismo, negacionismo e discriminação encontram um terreno fértil para se propagar de forma instantânea, sem fronteiras ou obstáculos. Este cenário sublinha a urgência de datas comemorativas como a libertação de Auschwitz, funcionando como um farol contra a névoa do esquecimento e um escudo contra a banalização do mal.
A Construção de um Sistema de Morte Industrializada
A história de Auschwitz é um testemunho arrepiante da metódica evolução de um projeto de extermínio. Iniciando com a ocupação de velhos barracões de um quartel polonês, sob a supervisão de figuras infames como Rudolf Höess, o campo cresceu exponencialmente. A improvisação inicial deu lugar a um sistema de trabalho escravo e experimentação brutal. Prisioneiros, inicialmente soldados soviéticos e civis poloneses, e depois as vítimas judias e de outras minorias, eram forçados a trabalhar até a exaustão ou a morte por espancamento. Foi em Auschwitz que os métodos e espaços para o gaseamento em massa de milhões de seres humanos foram meticulosamente desenvolvidos, utilizando o gás Zyklon B e fornos crematórios, inspirados nos “experimentos de eutanásia” do Projeto T4.
A Escala Indizível da Perda Humana
Os números de Auschwitz são um fardo pesado para a consciência global. Estima-se que cerca de 1,1 milhão de pessoas pereceram ali, sendo aproximadamente 1 milhão delas judias. A esta cifra devastadora somam-se as vidas de cerca de 70 mil poloneses, 21 mil ciganos (roma e sinti), 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e aproximadamente 12 mil prisioneiros de outras etnias. Cada número representa uma vida singular, uma família destruída, um futuro ceifado, ecoando a brutalidade de um regime que transformou o preconceito em política de estado.
O Alerta Vermelho do Antissemitismo Contemporâneo
A data de 27 de janeiro, designada pelas Nações Unidas como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, ganha uma relevância ainda maior no contexto atual. O antissemitismo, longe de ser uma relíquia do passado, está em vertiginoso crescimento globalmente, e o Brasil não é exceção. Observamos a hostilização e ataques a judeus em diversos países, muitas vezes responsabilizados coletivamente pelas decisões políticas de Israel, um padrão de discriminação não aplicado a outras etnias ou nacionalidades em conflitos contemporâneos.
Manifestações de Ódio em Solo Brasileiro
No Brasil, os dados são preocupantes: um estudo recente apontou um aumento de 350% nas denúncias de antissemitismo em apenas dois anos. A internet tornou-se um vetor primordial para a propagação desse ódio. Não são apenas números, mas incidentes concretos: vandalização de cemitérios judaicos com pichações e suásticas, e hostilizações a membros da comunidade judaica em eventos públicos. Um rabino brasileiro, por exemplo, foi escoltado para fora de um evento importante em seu próprio país devido à intolerância de um grupo de manifestantes. Tais eventos sinalizam uma perigosa normalização do antissemitismo, que se assemelha à atmosfera criada gradualmente pelo regime nazista na Alemanha a partir de 1933.
A Perigosa Normalização do Preconceito
Os estereótipos e as teorias conspiratórias imputadas aos judeus hoje são, infelizmente, um eco dos mesmos discursos propagados na Europa do século XIX e intensificados durante o Terceiro Reich. A história nos ensina que a indiferença e a passividade diante dessas manifestações são os primeiros passos para a reedição de tragédias. A erosão dos regimes democráticos e a desintegração rápida do sistema internacional pós-1945 conferem um caráter dramático e urgente ao alerta histórico.
A Urgência da Educação e da Memória
Diante deste cenário, a postura das autoridades e da sociedade brasileira deve ser inequivocamente antirracista, engajada ativamente no enfrentamento do antissemitismo e de todas as formas de discriminação. A memória do Holocausto e a constante vigilância contra o ódio não são meros exercícios acadêmicos; são pilares para a preservação da dignidade humana e da própria democracia. A história nos lembra que, embora nem todo discurso de ódio culmine em genocídio, todo genocídio começa com um discurso de ódio. A responsabilidade de aprender com o passado e de agir no presente é de todos nós.
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Referência Bibliográfica:
Pereira, Flávio de Leão Bastos. “Auschwitz, 81 anos: memória, antissemitismo e alerta”. JOTA, 27 jan. 2026. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/auschwitz-81-anos-memoria-antissemitismo-e-alerta. Acesso em 30 de janeiro de 2026.