
O governo e o Congresso avançam em debates cruciais para empresas, como a proposta de redução da jornada de trabalho para menos de 44 horas, com previsão de transição para setores específicos. Além disso, a definição sobre qual Justiça julgará casos de “pejotização” ganha destaque, impactando diretamente as relações de trabalho e a estratégia de contratação.
Cenários e Desafios: A Agenda Legislativa e Econômica em Ebulição no Brasil
O cenário político e econômico brasileiro é um complexo ecossistema de discussões e decisões que reverberam diretamente no ambiente de negócios e na vida dos cidadãos. Nos bastidores do Congresso e nas mesas de negociação do governo, temas cruciais sobre jornada de trabalho, tecnologia, relações internacionais e integridade judicial moldam o futuro do país. Entender essas movimentações é fundamental para antecipar impactos e traçar estratégias.
1. A Redução da Jornada de Trabalho: Um Debate Central
A proposta de alterar o regime de trabalho conhecido como 6×1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso, para um modelo com mais dias de repouso, tornou-se um dos pontos centrais da agenda legislativa. Essa discussão, que goza de amplo apoio popular, também encontra resistência em setores empresariais que preveem impactos significativos em suas operações. Observa-se um consenso, inclusive entre as correntes mais progressistas do parlamento, sobre a necessidade de se estabelecer um período de transição bem estruturado para que as empresas possam se adaptar. O debate se aprofunda sobre a natureza dessa transição: se será aplicada de forma homogênea a todas as empresas ou se haverá diferenciação por porte e setor. O governo, por exemplo, tem manifestado a intenção de beneficiar micro, pequenas e médias empresas com uma adaptação mais gradual, reconhecendo que setores como bares e restaurantes poderiam sofrer um impacto mais acentuado do que indústrias de alta tecnologia. Propostas de transição de até uma década estão em fase inicial de debate, sinalizando a complexidade da matéria.
2. A Visão Técnica do Ipea: Sustentando a Redução da Jornada
A discussão sobre a jornada de trabalho ganhou um novo suporte técnico com a divulgação de uma nota pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Este estudo oferece uma base argumentativa importante para os defensores da redução da carga horária, seja de 44 para 40 ou 36 horas semanais. O Ipea conclui que tal alteração não resultaria, de forma automática, em uma diminuição da oferta de empregos ou na queda da produção. A análise revela que os efeitos econômicos seriam variados entre os diferentes setores. Muitos segmentos de serviços, como administração pública, saúde, educação, finanças e tecnologia da informação, já operam com jornadas iguais ou inferiores a 40 horas. No entanto, setores como agropecuária, comércio, construção civil e transporte mostram uma concentração maior de vínculos acima de 40 horas, indicando a necessidade de processos de transição mais cuidadosos para evitar distorções. O estudo também aponta que o impacto final sobre o custo total de operação, para a maioria dos grandes empregadores, seria limitado. De um ponto de vista social, a pesquisa destaca que os trabalhadores mais afetados pelas jornadas extensas são, frequentemente, os mais vulneráveis, com salários mais baixos, menor estabilidade e menor qualificação.
3. Desafios no Congresso: O Projeto Redata e o Calendário Legislativo
No âmbito da Câmara dos Deputados, a aprovação do requerimento de urgência para o Projeto de Lei (PL) 278/2026, que espelha o texto da Medida Provisória (MP) referente ao regime especial para data centers, ilustra a dinâmica intensa do calendário legislativo. Embora a votação do mérito tenha sido adiada para depois do Carnaval, a pressão do tempo é constante, especialmente considerando que a MP original tem um prazo de validade. A indicação de um relator para o projeto é uma etapa crítica, e a necessidade de negociações entre o Poder Executivo e o relator evidencia a complexidade de aprovar matérias com impacto econômico. O governo busca refinar o texto com sugestões de emendas, enquanto o presidente da Câmara expressa preocupação com o risco de a proposta caducar, o que geraria um ônus político para a casa legislativa. Essa situação sublinha a tensão inerente entre os interesses e os prazos dos diferentes poderes na condução da agenda nacional.
4. O Tabuleiro Eleitoral em São Paulo: Movimentos com Vistas a 2030
A arena política do estado de São Paulo se configura como um palco estratégico para as eleições futuras, especialmente com a mira em 2030. A questão central gira em torno de quem, entre nomes como Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, estaria mais propenso a disputar o governo estadual e quais seriam as implicações de uma eventual derrota frente ao atual governador Tarcísio de Freitas. Para Haddad, um novo revés eleitoral poderia significar a perda de um mandato e uma maior dependência do presidente e do seu partido na corrida presidencial de 2030. Já para Alckmin, um político com vasta experiência no governo paulista, uma vitória no estado não se traduz automaticamente em sucesso eleitoral em nível nacional, e uma derrota teria um peso ainda maior em sua trajetória. O espectro de candidatos se expande com a inclusão de nomes como Simone Tebet e Márcio França, cada qual com suas próprias estratégias e ambições que transcendem a simples eleição paulista, vislumbrando o cenário político após o atual mandato presidencial.
5. A Integridade no Judiciário: O Afastamento Cautelar no STJ
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) demonstrou sua firmeza na defesa da integridade de seus membros ao afastar o ministro Marco Buzzi de suas funções. A decisão, tomada por unanimidade em uma sessão extraordinária, ocorreu após a emergência de denúncias graves de importunação sexual. Este afastamento, classificado como cautelar, temporário e excepcional, impede o ministro de acessar seu local de trabalho, utilizar veículo oficial e exercer qualquer prerrogativa inerente ao cargo, enquanto as investigações da Comissão de Sindicância prosseguem. A medida reforça o compromisso do Judiciário com a ética e a conduta ilibada de seus representantes, enviando um sinal claro de que condutas inadequadas não serão toleradas. A defesa do ministro, por sua vez, manifestou a falta de acesso aos autos do processo, alegando a impossibilidade de uma manifestação responsável e repudiando julgamentos públicos precipitados.
6. Comércio Internacional: Mercosul-UE e as Novas Cláusulas de Salvaguarda
No panorama do comércio exterior, o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) ganhou um novo capítulo com a aprovação, pelo Parlamento Europeu, de cláusulas de salvaguarda destinadas a proteger o setor agrícola europeu. Essa medida, aprovada por ampla maioria, representa um passo significativo, sinalizando o contínuo interesse europeu no acordo, apesar das resistências internas, particularmente da França. As novas regras detalham como a UE poderá suspender temporariamente as preferências tarifárias sobre importações agrícolas do Mercosul, caso um aumento abrupto e prejudicial dessas importações seja identificado. Os critérios para acionar tais salvaguardas incluem um aumento de 5% nas importações em três anos e preços de importação 5% inferiores aos domésticos. A Comissão Europeia também será responsável por relatar ao Parlamento, semestralmente, o impacto das importações de produtos agrícolas sensíveis, mantendo uma vigilância constante sobre o equilíbrio comercial e o bem-estar dos produtores locais.
7. Fiscalização Financeira: O Senado na Pista do Caso Master
A função fiscalizatória do Poder Legislativo foi acionada com a aprovação de requerimentos pela Subcomissão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado para investigar o “Caso Master”. As audiências, previstas para o período pós-Carnaval, prometem trazer à tona detalhes e responsabilidades sobre a liquidação do banco. Nomes de destaque do cenário financeiro e regulatório foram convocados para prestar esclarecimentos, incluindo figuras-chave do Banco Central, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério da Fazenda. O Banco de Brasília (BRB) também está na mira dos senadores, que buscam ouvir seus diretores e o ex-presidente. Essa movimentação legislativa ressalta a importância da transparência e da responsabilização no setor financeiro, e a capacidade do Congresso de atuar como guardião dos interesses públicos em face de eventuais irregularidades.
8. Relações de Trabalho: Pejotização, Fraude e a Competência da Justiça
O Procurador-Geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, levantou uma questão crucial para o futuro das relações de trabalho no Brasil: a competência para julgar casos de fraude, especialmente a chamada “pejotização”. Em entrevista, Oliveira defendeu a expertise da Justiça do Trabalho para analisar situações em que vínculos empregatícios são mascarados por contratos de pessoa jurídica (PJ). Essa posição contrasta com um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) no Supremo Tribunal Federal, que sugere que a competência para decidir sobre a validade de contratos civis e comerciais de prestação de serviços caberia à Justiça Comum. O Procurador-Geral do Trabalho alertou que a prevalência do posicionamento da PGR poderia acarretar um prolongamento considerável dos processos, pois a Justiça Comum faria uma análise inicial sobre a validade contratual, e somente após essa tramitação, em caso de identificação de fraude trabalhista, o processo seria remetido à Justiça do Trabalho. Ele ressaltou que, embora o Ministério Público do Trabalho respeite outras modalidades de trabalho, sua prerrogativa é investigar as condições sob as quais esses formatos são estabelecidos, combatendo a transmudação de empregados celetistas em PJs sem autonomia real.
9. Patentes Farmacêuticas: Entre a Acessibilidade e o Estímulo à Inovação
A Câmara dos Deputados iniciou um debate de grande impacto social e econômico ao aprovar o requerimento de urgência para um projeto que visa declarar os medicamentos Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly, como de interesse público. Este é o primeiro passo para uma possível licença compulsória, ou quebra de patente. A iniciativa encontra ressonância popular pela promessa de baratear o acesso a medicamentos utilizados no controle da diabetes e na perda de peso. Contudo, o tema é repleto de nuances. A chegada iminente de versões genéricas de medicamentos similares, como Ozempic e Rybelsus, cuja patente está prestes a expirar, pode aumentar a oferta e reduzir os preços, mitigando parte da necessidade de licenciamento compulsório para os novos fármacos. Além disso, a quebra de patente não garante a produção imediata e em larga escala de genéricos, pois o processo requer uma capacidade técnica complexa. O governo, atento a essas complexidades e à contraproposta da indústria farmacêutica por mecanismos que ampliem os prazos de patente, deve adotar uma postura de neutralidade, respeitando as regras existentes para a proteção de patentes e para a promoção da chegada de genéricos ao mercado.
Converse com seu contador sobre essa oportunidade.
Referência Bibliográfica:
JOTA. JOTA Principal: Governo e Congresso discutem textos possíveis para fim da jornada 6×1. [S. l.]: JOTA, 11 fev. 2026. Disponível em: https://www.jota.info/newsletters/jota-principal/governo-congresso-discutem-textos-fim-da-jornada-6×1. Acesso em: 18 de fevereiro de 2026.