
Com as crescentes tensões geopolíticas impactando a economia e gerando incertezas, empresas com práticas ESG robustas demonstram maior resiliência. Integrar ESG à estratégia de negócios é crucial para fortalecer a governança, mitigar riscos e garantir a estabilidade operacional em um cenário global imprevisível.
Resiliência Corporativa em Tempos de Transformação: A Agenda ESG e os Riscos Geopolíticos
As dinâmicas globais estão em constante mutação, e o século XXI tem se mostrado um palco para transformações geopolíticas aceleradas. Essas mudanças, que se manifestam em tensões e rearranjos de poder entre nações, têm um impacto profundo nas esferas econômica, política e regulatória. Para o mundo dos negócios, tal cenário se traduz em turbulências que afetam diretamente as cadeias produtivas, geram incertezas sem precedentes e podem, inclusive, ameaçar a continuidade das operações. Empresas que assumiram compromissos com as práticas Ambientais, Sociais e de Governança (ESG) se veem diante de um desafio adicional: como manter a integridade de sua agenda em um ambiente tão volátil?
A Geopolítica: De Conceito Acadêmico a Fator Crítico de Negócios
A relevância da geopolítica para a estratégia corporativa é inegável, especialmente em um período de crises sucessivas que remodelam a forma como os negócios operam. Embora o termo tenha raízes no início do século XX, com Rudolf Kjellén explorando a relação entre poder político e geografia, e tenha sido relegado por um tempo devido a associações ideológicas, ele ressurgiu com força na década de 1990. Hoje, a geopolítica é compreendida como o estudo dos discursos políticos entre atores internacionais, influenciado por uma miríade de fatores que determinam a importância econômica e estratégica da localização de um país. O risco geopolítico, por sua vez, abrange as profundas alterações nas estruturas políticas, econômicas, sociais e de segurança, tanto de nações quanto de empresas.
Desvendando a Complexidade do Risco Geopolítico
A consultoria Eurasia enfatiza que a capacidade de antecipar e avaliar riscos geopolíticos deixou de ser uma vantagem e se tornou um imperativo estratégico. O desafio reside na sua natureza multifacetada: diferentemente dos riscos operacionais ou financeiros tradicionais, os riscos geopolíticos são notoriamente difíceis de prever e quantificar. Eles são intrinsecamente ligados a decisões políticas, eventos inesperados e complexas alianças econômicas, que se desdobram em um tabuleiro global em constante movimento. Essa imprevisibilidade impõe às corporações a necessidade de desenvolver uma capacidade adaptativa robusta e um compromisso genuíno com uma governança resiliente e a sustentabilidade.
Um Cenário Global em Busca de Equilíbrio
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, tem consistentemente realçado o protagonismo do risco geopolítico, que em anos recentes chegou a superar a crise climática como a principal preocupação global. Este reconhecimento reflete a percepção de que o mundo se encontra em um momento de grandes transformações, buscando um novo equilíbrio geopolítico. A dissolução da União Soviética, em 1991, marcou o fim da Guerra Fria e o início de uma nova ordem, mas os últimos anos testemunharam um ressurgimento das tensões. Conflitos em diversas regiões do mundo, desde a Ucrânia até a Faixa de Gaza, Cisjordânia, Iêmen, Congo, Sudão, Somália e Venezuela, demonstram a fragilidade das alianças mundiais e a urgente necessidade de construir novas pontes em um sistema cada vez mais vulnerável.
A Economia Global e a Pressão Geopolítica
A pressão sobre a economia global é intensificada por projeções de crescimento mais lento. O relatório “Situação e Perspectiva da Economia Mundial 2026” (WESP-2026) da ONU prevê uma produção global de apenas 2,7% para o ano, um índice inferior à média de 3,2% registrada durante o período pandêmico. Este panorama de desaceleração é agravado por fatores como as tensões geopolíticas, eventos climáticos extremos e a fragmentação das relações comerciais. Tais perturbações econômicas não apenas inquietam o cenário internacional, mas também exacerbam os desafios para as empresas, tornando a gestão de riscos, incluindo os de natureza ESG, ainda mais complexa e vital.
Três Pilares de Desafio para a Agenda ESG
Para empresas que estão firmemente engajadas com a agenda ESG, o contexto geopolítico atual apresenta três categorias de desafios significativos:
- Interrupções nas Cadeias de Suprimentos: Conflitos e tensões geopolíticas podem desorganizar o comércio internacional, criando gargalos logísticos, gerando escassez de insumos e provocando aumentos nos custos de produção. Isso não apenas afeta a competitividade, mas também exige uma busca urgente por novos fornecedores, podendo comprometer a governança corporativa e a aderência aos objetivos ESG estabelecidos.
- Ambiente Regulatório Volátil: As mudanças geopolíticas frequentemente resultam em transformações no ambiente regulatório. O aumento do nacionalismo econômico, o protecionismo e um intervencionismo estatal mais acentuado podem afetar diretamente as empresas transnacionais e seus modelos de governança, forçando ajustes nas operações e nas estratégias ESG.
- Riscos Financeiros e Cambiais: Conflitos globais tendem a desestabilizar os mercados de capitais, levando a uma alta volatilidade, flutuações no valor das moedas e mudanças nas taxas de juros. Essa instabilidade impacta as finanças corporativas e exige decisões estratégicas rápidas, que, por sua vez, podem afetar as agendas sociais das empresas, especialmente aquelas atuantes em regiões com crises humanitárias ou violações de direitos humanos.
A Resiliência Comprovada das Práticas ESG
Em meio a esse ambiente complexo, a boa notícia é que empresas com maturidade em práticas ESG têm demonstrado maior resiliência aos riscos geopolíticos. Pesquisas acadêmicas recentes, incluindo um estudo com 42 mil empresas de 37 nacionalidades entre 2002 e 2022, apontam que a resposta das empresas aos riscos geopolíticos é mais positiva quando há um forte engajamento ESG. Outros estudos, como o conduzido por pesquisadores chineses sobre empresas listadas na Bolsa de Xangai, indicam que, embora a instabilidade política possa afetar as estratégias ESG, ela também pode se tornar uma oportunidade para elevar os padrões e o desempenho. A conclusão é unânime: empresas comprometidas com ESG não apenas suportam melhor os impactos, mas também utilizam a crise como catalisador para aprimorar suas abordagens.
ESG como Estratégia de Adaptação e Fortalecimento
Um estudo publicado no Journal of Environmental Management reforça que empresas com foco em ESG são menos vulneráveis aos riscos geopolíticos. A explicação reside em suas práticas robustas de gestão de riscos, na diversificação de suas cadeias de suprimentos e na capacidade de construir relacionamentos sólidos com todas as partes interessadas. Como resultado, estas corporações experienciam menor volatilidade em seu desempenho financeiro, mesmo em períodos de incerteza geopolítica. Integrar os princípios ESG à estratégia de negócios não é apenas uma questão de conformidade ou responsabilidade social, mas uma tática essencial para a sobrevivência e o crescimento em um cenário global imprevisível.
Fortalecendo a Governança para o Futuro
A interconexão entre riscos geopolíticos, ambientais, sociais, econômicos e tecnológicos exige uma abordagem holística e integrada. As empresas que priorizam a agenda ESG estão mais bem equipadas para enfrentar essa complexidade, pois suas estruturas de governança são geralmente mais transparentes e preparadas para a tomada de decisões éticas e sustentáveis. Para salvaguardar os compromissos ESG frente a um futuro incerto, é fundamental que as corporações invistam continuamente em capacidade adaptativa, fortaleçam seus mecanismos de governança e reforcem o compromisso inabalável com a sustentabilidade em todas as suas dimensões. É um investimento no presente que garante a estabilidade e a prosperidade futura.
Converse com seu contador sobre essa oportunidade.
Referência Bibliográfica:
LEE, Yun Ki. Resiliência ESG frente aos riscos geopolíticos. JOTA Jornalismo, 2 fev. 2026. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/praticas-esg/resiliencia-esg-frente-aos-riscos-geopoliticos. Acesso em: 11 de fevereiro de 2026.